23 de dez de 2010

O que é natal?

Vamos começar essa história bem do comecinho, em tópicos para não ficar grande demais.
Meu avô Duílio nasceu em Santos.

Ele trabalhou por mais de 45 anos na Tognato.
1982 minha mãe casou.
1982 minha mãe engravidou de mim.
1982 meu avô se aposentou.
1982 meu avô achou que tinha que trocar o apê da praia por um maior, já que a família estava crescendo. E trocou.
1983 eu nasci.
1985 minha mãe se separou.
2004 minha mãe morreu.
2006 meu avô morreu.
2008 eu e o Fabinho resolvemos ter um nenê.
2009 minha filha nasceu.

Em 2010 eu e minha avó conversamos e chegamos a conclusão que não valia mais a pena continuar com o apto da praia. Imposto alto, condomínio, telefone, luz... e a gente nos últimos 3 anos só tinha ido para lá 3 vezes, ou seja, uma vez por ano. Não rolava mais.

Enquanto isso o apê de São Paulo estava pequeno... apesar de ter passado por uma reforma em 2005, agora a necessidade era outra, montar mais um quarto.

Colocamos o apartamento da praia em várias imobiliárias. 8 meses sem propostas. Até que apareceu uma pessoa. Começamos a correr com a papelada, como a pessoa vai usar uma carta de consórcio para fazer a compra, precisamos de muuuuuuitos documentos. Quando digo muitos, são muitos de verdade... para ter idéia só na documentação gastamos mais de 1500 reais. E isso pq o apartamento estava com tudo em dia... Enfim, foi quase um mês correndo em cartórios, fóruns, prefeitura... até que chegou o dia de ontem.

ONTEM

Fui com minha filha até o litoral para buscar o último documento que faltava ficar pronto. Depois fomos até o apartamento, entrei no meu quarto e, em cima da minha cama, coloquei toda a papelada na ordem certa. Quando terminei isso, fechei a pasta e falei “agora é só levar a documentação”... me bateu o desespero que não tinha batido até então. Eu estava VENDENDO o apartamento que meu avô comprou em 1982 pq eu ia nascer. Agora eu estava VENDENDO. Fiquei parada me questionando se isso estava certo. Fiquei pensando no final da vida do meu avô, ele contando os centavos da aposentadoria p poder manter aquele apartamento. Chorei. Pedi desculpara para o meu avô. Sorri, fiquei triste, chorei, sorri de novo. Fiquei pensando na quantidade de coisas que eu passei naquele lugar... eu ia para lá todo final de semana... passei quase todas as minhas férias da infância lá...

Pulava onda naquela praia
Fazia buraco na areia e usava o papel do ovo de páscoa para forrar e colocar água dentro
Assistia shows da Sorvetinho e da palhaça Ferrinho
Aprendi a nadar
Tomei muito sol na piscina do clube
Fiz muita caminhada na praia
Fiz muitas amizades que duram até hoje
Conheci meu primeiro namorado
Comprei muita coisa na feirinha hippie
Aprendi a andar sozinha na rua
Aprendi a pegar ônibus intermunicipal sozinha
Fui em muitas festas do Mares do Sul
Me apaixonei pelo churros de doce de leite
Descobri que não consigo acertar a bolinha do jogo de tênis
Aprendi a jogar tranca
Dancei muito Trem da Alegria, Xuxa e A Noviça Rebelde
Muitas tardes dormidas no sofá
Comprei muito peixe tapando o nariz com o dedo
Tomei todos os sorvetes que a Kibon lançava a cada verão
Assisti centena de vezes A Lagoa Azul
Fui em shows bons e ruins
Corri atrás do pavão da piscina do clube
Mergulhei bem fundo até colocar a mão no chão da piscina de 2,50m de profundidade
Andei de banana boat
Foi naquele apartamento que em 30/12/2008 eu senti pela primeira vez minha filha mexendo dentro da minha barriga

Era a minha segunda casa.

Você sabe o que é natal?

Para mim, aquele apartamento foi natal na minha vida.

6 comentários:

Cléo disse...

C/ os olhos cheios de lágrimas, acabo de ler esse lindo e emocionante texto. Passei por isso qd foi vendido os dois aptos. Tb fiquei c/ remorso e tb pedi desculpas a meus pais em pensamento. O motivo da venda foi diferente, pois envolveu mais pessoas. Nesse caso, ser filha única tem suas vantagens. Tenha certeza que seu avô está olhando por vc e está entendendo td.
Bjs

Rose Tambasco disse...

Por mais materiais que as coisas sejam elas sempre tem um peso emocional muito grande ainda mais se tratando de um imovel de muito tempo. A vida da gente fica gravada em cada camada de tinta das paredes mas....mas a vida anda...Maria Eduarda esta começando a pintar as paredes da vida dela e e por essa causa mais do que nobre que vc encerra a jornada de seu avô no apartamento da praia.

Pedro rocha disse...

Mandou bem demais, Amanda.
Parabens!

Thaiza Nacaxe disse...

Que lindo Amanda.
Mas é difícil mesmo se desfazer de coisas que foram tão importantes para nós e para outras pessoas mais importantes ainda!
Beijos, feliz 2011.

Amanda disse...

Então aí eu te pergunto vc quer mesmo fazer isso?

viviane disse...

Ai,não tinha lido...Choreiiiiiii!
Vc parece tão decidida em td, Amanda,tão forte...Que linda vc é, eu te admiro mto,sabia?
Viveu momentos inesquecíveis nesse ap e vende agora, para que a Maria Eduarda possa viver outros tão marcantes, no ap de vcs, no quarto que vai ser montado com tanto amor pra ela!
E essa é a vida. Seus momentos estão dentro de vc, não precisam do ap da praia para que sejam lembrados e guardados pra sempre!